O que levar para dentro da escola quando o isolamento passar?

Por Juliana Caetano

Em casa, sozinho, vemos um pré-adolescente prestes a se conectar ao Google Hangout Meet para uma aula online. O professor entra colocando regras, pois a primeira videoconferência com essa turma, há uma semana, parecia linha cruzada entre 20 telefones. Nesta nova aula as regras são claras, microfones desligados e turnos de fala organizados pelo chat, assim o professor consegue dar suas instruções sem ser interrompido. A ausência de interrupções, estas geralmente fruto de uma reação em cadeia que começa com piadas, risos e dancinhas do TikTok, desperta uma sensação ambígua. Por um lado, um deleitamento que só o silêncio propicia, por outro, uma sensação de que algo não vai bem nessa dinâmica no mundo virtual. O professor por precaução pergunta:

 

- Estão todos aí? Me escutam?

- Sim. Repetem cerca de 20 outras vozes, como em uma reação em cadeia virtual.  

 

Um pouco receoso, mas garantindo um semblante de tranquilidade porque sua câmera está ligada e, pela primeira vez, um familiar do aluno está em sala de aula com vc, o professor prossegue. Do outro lado está o aluno, e algum familiar no seu cangote. Por sorte, ou azar.

 

Contrariando prognósticos, o professor tem a  impressão de que o tempo online é mais curto do que o presencial,  pois a interface digital insere um elemento de distanciamento e certa lentidão aos processos que, costumeiramente, faríamos em poucos minutos.  No mundo presencial, especialmente no ambiente da sala de aula com crianças e adolescentes, as respostas tendem a vir antes mesmo das perguntas. Propostas dialógicas são super bem vindas, já no mundo virtual, pode não ser bem assim. Em um ambiente de videoconferência uma pergunta meramente retórica do tipo “Todos conseguiram entrar?” é um portal para a incomunicação. Desafio-o a encontrar alguém que, após tal pergunta, não tenha gasto alguns bons minutos tentando retomar de onde parou. E nesse momento o que faz falta mesmo é a comunicação corporal. 

Na segunda tentativa o professor já vai mais preparado e orienta:

 

- Pessoal, quem conseguiu acessar ótimo. Só se manifesta quem precisar de ajuda para acessar a atividade ok?

 

Um silêncio sepulcral se instaura no ambiente. E por um momento, aquela sensação deliciosa de não ser interrompido (aquela lá do início) desaparece e dá lugar a uma terrível insegurança de que ninguém prestou a atenção em nada, e que sua função não está sendo realizada. Afinal, aprendemos que ser professor é ensinar conteúdos, e não ensinar a aprender. Para isso é preciso metacognição. Metacognição deve ser algo ensinado. 

 

O aluno, nessa nova situação, se vê desafiado a agir por conta própria caso caia a conexão, caso não entenda onde escrever, caso tenha acesso negado ao site indicado, caso não encontre sua borracha. Se vira! E a sensação aqui pode ser a mais diversa possível. Empoderamento, medo? Isso depende do que temos ensinado aos alunos.  

 

Já o parente ao lado pode assumir diferentes posicionamentos. Pode ser aquele que vai falar “Pelo amor de Deus, você já tem idade para vir para a aula preparado né?” ou então, e espero que não na maioria das vezes, algum poderá dizer “Era só o que me faltava, além de dar aula no lugar da escola agora tenho que ir atrás de material para essa criança”. E nessas, a meu ver, vivenciamos um elemento presente na crise que envolve a educação. A ausência da corresponsabilidade na aprendizagem. 

 

 As três personas que aparecem nessas situações hipotéticas são atores no processo educacional, mas nem sempre entendem sua responsabilidade. E o isolamento social, que nos privou de sociabilidade presencial, nos desafia a criar novos hábitos e desacostumar de outros, criando um espaço propício para a revisão de nossas ações. 

 

 Talvez estejamos, nesse exato momento, nos reconectando também com nossa potência individual. Redescobrindo tempos e espaços para a aprendizagem e diluindo antigas dicotomias, nos unindo em um estado compartilhado de "ser aprendiz".  

 

Aos alunos, aqueles em posse de condições privilegiadas para seguirem com estudos remotos, oferece-se a oportunidade de desenvolver a autonomia sobre seus estudos e desenvolver diferentes habilidades. E, até mesmo, para se apropriarem de coisas que já fazem em ambiente escolar, mas lá com uma mediação especializada. 

 

Aos professores, a oportunidade de aceitarem o desafio de se tornarem eternos alunos. 

 

Às famílias, a chance de descobrir o valor da educação para algo além da sala de aula, e a partir disso, se verem como responsáveis no processo educativo. Afinal, embora a escola e os professores sejam instituições formais, educar vai muito além. 

 

Nesse sentido, considero que podemos levar algumas reflexões para dentro da escola quando o isolamento passar.

 

A ideia de treinamento dava super certo quando o objetivo era treinar alguém para exercer uma função com poucas chances de mudanças. Mecânicas, previsíveis. Esse modelo acabou delineando boa parte das dinâmicas de formação de professores, educava-se para esse cenário. 

 

Ser treinado para determinada função repete um modelo mecanicista e industrial que já não tem aderência à sociedade do conhecimento a qual habitamos. Nessa sociedade, máquinas são inteligentes e, cada vez mais, aprendem a aprender. Sendo assim, a ideia de aprendizagem profissional é o caminho a ser percorrido pelos atores que dividem seus espaços com algoritmos. Aprender a aprender e aceitar viver um estado de eterno “tornar-se”, como diria Kevin Kelly, é condição essencial para tirarmos o melhor proveito do que o futuro nos prepara. 

 

A ideia de aprendizagem profissional, agora com olhar voltado à educação, refere-se  à ação contínua para adequação do trabalho docente ao contexto a que serve (com todas as suas peculiaridades). Trata-se de abraçar um auto-desenvolvimento mediante uma abordagem sistêmica e complexa. Ou seja, é preciso compreender que vivemos em rede, conectados a diversos atores (humanos e não humanos), produzindo e consumindo dados e informações que nos conectam a micro e macro contextos, e que tudo isso constrói nossa identidade e a identidade daqueles a quem iremos educar. 

 

E é por fazer uma leitura do mundo de hoje, com uma pitada de futurologia, que podemos afirmar que é necessário repensar nossos modelos, principalmente aqueles que carregam a tiracolo a frase “minha mãe fazia isso e eu não morri”. Possivelmente, porque na época da sua mãe “isso” não matava. E nem era tão urgente abandonar discursos tão enrijecidos sobre possibilidades de mudança como atualmente é.  

 

A aprendizagem profissional, então, pressupõe repensar onde a aprendizagem ocorre também para a formação docente. Espaços formais, não-formais e informais também são valiosos para a educação profissional. Outro aspecto a ser repensado diz respeito às referências e postos de liderança sobre o conhecimento. O compartilhamento em comunidades de prática, algo que pudemos observar acontecer nas últimas semanas, quando escolas 100% presenciais tiveram que se apropriar de algumas estratégias para manter alunos ocupados e estudando em casa, é algo que consideramos essencial para a formação docente.  Usar todo o potencial da comunicação em rede é uma das formas de responder às necessidades urgentes de mudanças nas práticas escolares. 

 

Os esforços para a aprendizagem de novos recursos e de novas metodologias nas últimas semanas ocorreu em ambientes online, através de redes sociais, na solidariedade frente à urgência de reinventar formas de educar. As escolas que se adiantaram, criaram suas próprias comunidades de prática online para que os profissionais trocassem dúvidas, angústias e resultados, unindo-os em momento de tamanha vulnerabilidade. 

 

O isolamento mostrou que somos capazes de transformar, de aprender com outros que também estão aprendendo, pois a ideia de que se aprende com os pares é o que mais enfatizamos na escola nos dias de hoje e isso não pode estar restrito aos alunos.

 

Por fim, ficamos com uma frase de Lois Brown Easton, pesquisadora da aprendizagem e desenvolvimento profissional:


Educators must be knowledgeable and wise. They must know enough in order to change. They must change in order to get different results. They must become learners, and they must be sef-developing.”   (2008, p.775)

Que o espírito de aprendiz volte com os professores para dentro da escola. 

 

Um dos pilares para uma gestão colaborativa é a corresponsabilidade. Nesse modelo de gestão os diferentes atores abraçam um objetivo compartilhado, e embora exerçam suas funções diferenciadas direcionam suas ações para o objetivo comum. No atual cenário, gostaria de salientar duas importantes abordagens para a questão da corresponsabilidade, em vista de um ideal de gestão colaborativa em micro e macro contextos.  Cabe ressaltar que o objetivo aqui não é discutir amplamente a ideia de gestão colaborativa e suas diretrizes, e sim propor um espaço para questionarmos, em vista da relação currículo-tecnologia e escola-família, como o entendimento da corresponsabilidade nos levaria a tomarmos atitudes mais positivas.

 

A primeira trata da gestão colaborativa da tecnologia em ambiente educacional. A situação em que as escolas se encontram desde final de Março parece ter evidenciado uma lacuna a ser preenchida em direção à construção de um corpus teórico sobre o que é ser escola na cultura digital. 

 

Até então, muito do que se vê em termos de inserção de tecnologia nas escolas não representa, de fato, uma transformação digital da instituição. Nem antes e nem depois da pandemia. Primeiramente, porque a ideia de transformação digital contempla otimização de processos e resultados através das tecnologias digitais tanto para a instituição (como empresa) quanto para o aluno, razão pela qual a escola existe. Logo, pensar em transformação digital é o inverso de se investir em tecnologia para decoração do espaço, ou para apenas divertir o aluno. Pois na escola até a diversão é educacional. 

 

Toda a questão da corresponsabilidade já começa aqui, pois assumir a transformação digital pressupõe alinhar todos os atores na mesma ideia, em vista do mesmo objetivo e todos apoiados na mesma missão. E dificilmente vemos tamanho envolvimento de gestores com o trabalho docente na interface com qualquer tecnologia digital como tivemos nessas últimas semanas, e esse envolvimento alinha profissionais para que possam conversar sobre desafios e potencialidades.  

 

No geral, a área de tecnologia educacional deve se integrar às demais áreas pedagógicas, mas o caminho inverso nem sempre ocorre. Ainda há a lógica top-down, na qual especialistas em tecnologia atuam na reconstrução do currículo, trazem suas propostas inovadoras e ditam tendências em sala de aula. 

 

O que o fechamento das escolas nos ensinou é que a integração da tecnologia ao currículo é tão complexa que somente uma abordagem colaborativa e descentralizada poderia dar conta da rapidez com que ações precisam ser repensadas, readaptadas e postas à serviço dos alunos e famílias nas suas inúmeras especificidades. 

 

Talvez agora tenhamos chegado a um entendimento básico comum do que é, de fato,  trabalhar com recursos e dispositivos diferenciados. Talvez agora possamos conduzir conversas em nossas instituições com todos em posse de um conhecimento mínimo sobre o que é trabalhar com tecnologias digitais na educação.  Agora sim podemos caminhar para uma gestão colaborativa da integração da tecnologia na educação, evitando, assim, abordagens meramente tecnicistas e voltadas exclusivamente para ganhos de marketing, deixando a aprendizagem em segundo plano.

A segunda questão que ponho na linha do debate sobre corresponsabilidade no processo educacional diz respeito à relação escola-família. Após os primeiros dias em que as crianças passaram a realizar atividades em casa milhares de memes e áudios começaram a circular nas redes sociais. Os conteúdos, quase sempre, satirizavam a situação de estar com os filhos em casa acompanhando seus estudos. Após duas semanas, nervos à flor da pele, e escolas produzindo cada vez mais conteúdos (e por um momento parece que toda escola virou conteudista), a questão da ausência de corresponsabilidade começou a ficar saliente. 

 

Bom, retomando a ideia de que a corresponsabilidade alinha todos os atores à uma missão e objetivo compartilhado, não seria esperado que escola e família estivessem do mesmo lado? Independente das muitas opiniões a respeito da efetividade do ensino a distância, a corresponsabilidade, se existisse, nos uniria em um estado compartilhado de “ser aprendiz”. 

 

Famílias, alunos e professores se assumindo como atores no processo educacional, pois é ingênuo pensar que a escola (instituição) adentrou as residências com toda sua força. A escola-instituição está fechada, mas toda sua potência segue em seus educadores, que se esforçam para continuar, mesmo que minimamente, aquilo que faziam em seus postos institucionalizados.  E no entendimento comum do que é educar, das nossas responsabilidades no processo educacional, na corresponsabilidade por esse processo, assumiríamos (mesmo com todas as dificuldades) ações mais positivas. 

 

Na existência de uma corresponsabilidade, a função das famílias seria, em situações normais, parecida com a que estamos sendo obrigados a viver agora. Acompanhamento e mediação. O mesmo podemos pensar em relação aos alunos, que em situações normais também são esperados ativos na sua própria aprendizagem.  

 

Nesse sentido, é preciso aprender com o isolamento e repensar a escola presencial sob o ponto de vista da gestão colaborativa da educação, e nesse sentido, famílias são tão responsáveis quanto a escola. Por que as deixarmos tão desocupadas dessa função?

Que possamos levar para dentro da escola um sentimento ainda maior de valorização do trabalho docente, uma visão mais crítica sobre a tecnologia na educação de forma a ponderar suas potencialidades e suas armadilhas, uma vontade ainda maior de estar próximo, um conhecimento mais genuíno de quem é o aluno, e, principalmente, que saibamos que temos um lugar de responsabilidade a ocupar e honrar daqui pra frente, em um estado compartilhado de "ser aprendiz".